NOSSA EXPERIÊNCIA MORANDO NO SERTÃO MINEIRO

Por quê o Sertão?

Em meados de 2011 conhecemos esse trabalho missionário no Sertão Mineiro no Circuito Urucuia, próximo à região de Urucuia Grande Sertão. Até então, nem sabíamos que o estado de Minas Gerais tinha um “Sertão” para chamar de seu. Já tínhamos ouvido muito falar sobre a escassez do Vale do Jequitinhonha, também no Norte de Minas, que é considerada uma das regiões mais pobres do Brasil, porém ainda não conhecíamos o lado oeste que é uma vasta região semiárida com incontáveis comunidades isoladas e muito carentes.

Começamos a ir periodicamente ao município de São Romão, mais especificamente ao Distrito de Ribanceira, às margens do Rio São Francisco, comunidade que recebeu o título de Quilombola em 2018. Nossas visitas eram junto à uma equipe da igreja que frequentávamos na época, que se empenhava na distribuição de cestas básicas, visitas às casas levando a Palavra e ajudas diversas relacionadas à infraestrutura das famílias.

A cada vez que íamos lá, uma chama de Deus se acendia em nós por fazer algo mais. O Rafa e eu já tínhamos o chamado de Deus para sair em missões, e Deus nos mostrava à cada dia que ali seria nossa primeira missão integralmente no campo. Nós nos apaixonamos pelas pessoas da comunidade, e começamos a desejar conhecê-las melhor, e assim entender as necessidades delas de uma forma mais pessoal.

Em 2017, tomamos a decisão de nos mudar para lá, para isso precisaríamos largar nossas atividades em Belo Horizonte. O Rafael teria que deixar seu trabalho que no momento era nossa principal fonte de renda. A história da demissão do Rafa você pode ler no nosso texto Desafios da Vida Missionária. Foi algo difícil e desafiador, mas guiado por Deus em cada etapa!

Tudo feito, conversamos com o Raphael Oliveira fundador do Love Movimento (projeto do qual fazemos parte e que está presente no sertão há vários anos). Ali elaboramos um plano de implantação de um projeto de missões à longo prazo na comunidade, levando empreendedorismo social, bem como discipulado, evangelismo, desenvolvimento comunitário, aulas, trabalho com crianças, dentre outros.

Marcamos a data da nossa mudança para o início de 2018, vendemos algumas coisas e começamos a empacotar! Essa foi uma jornada que começou na certeza de que nunca mais voltaríamos para a vida de antes.

Adaptação

Chegando à Ribanceira nos instalamos na base missionária do Love. Pudemos perceber no olhar de algumas pessoas da comunidade o espanto em ver que realmente íamos morar ali. Durante várias semanas as crianças nos perguntavam que dia iríamos embora, e tínhamos que convencê-las que dessa vez não iríamos!

Estabelecemos uma rotina inicial de bastante trabalho. As demandas eram muitas e havia muitos projetos que gostaríamos de desenvolver. Porém, com o tempo fomos amadurecendo as ideias e percebendo que precisaríamos estabelecer focos para que não ficássemos sobrecarregados e para que pudéssemos trabalhar com excelência.

Entendendo melhor sobre os horários da comunidade, o dia a dia deles e sua disposição, conseguimos estabelecer uma agenda que se tornou mais efetiva. O clima local é muito quente, por isso o período da tarde pós-almoço, por exemplo, é um horário que não somente nós dois nos sentíamos muito baqueados, como toda a comunidade usava esse tempo para descansar.

Descobrindo coisas assim, foi que pudemos ajustar nossas expectativas, nos planejar melhor, e assim obter mais produtividade.

Também tivemos que entender a cultura local e o comportamento das pessoas. Ainda que estivéssemos no nosso estado natal – Minas Gerais – é assustador como a cultura é muito diferente. Os hábitos e a forma de pensar das pessoas, a cultura de trabalho, ritmo, horários, linguajar, tudo isso nos impactou grandemente, e fomos treinados a nos adequar ao modo de vida local, sem deixar de trazer os princípios do Reino.

Algo que não posso deixar de mencionar foi o quanto nosso dia a dia mudou em relação à quando morávamos na cidade. O ritmo do interior, em uma comunidade tão isolada nos fez abrir os olhos para pequenas coisas. Aprendemos um estilo de vida muito mais simples, em que pessoas se relacionam diariamente como comunidade. Nossa casa, sempre cheia, nos ensinou a abrir mais espaço em nossa vida para os outros, e compartilhar tudo o que tínhamos, nos fez entender conceitos Bíblicos que até então eram apenas teorias.

nossas maiores dificuldades

Sem dúvidas, falando da missão em si, trabalhar com a cultura foi nosso maior desafio. Ajudar pessoas não é só uma questão de disponibilizar recursos. A maior dificuldade está em influenciar com uma nova mentalidade que reconhece princípios e valores corretos. Implementar uma cultura de trabalho, mostrar a importância do conhecimento em um lugar onde a educação é a última das prioridades, não é uma tarefa simples.

Perdemos a conta das vezes em que nos frustramos tentando explicar conceitos simples, e ensinar algo básico, enquanto as pessoas não entendiam nada do que estávamos dizendo. Um dos maiores gigantes que enfrentamos se chama “complexo de inferioridade”. Muitas pessoas não viam valor em si mesmas, e não consideravam que poderiam adquirir realizações na vida. Essa mentalidade leva ao descompromisso e à falta de objetivos claros, e ainda pior, a ausência de motivação.

Já no aspecto pessoal, encontramos dificuldades com o clima muito quente a maior parte do ano, o que torna qualquer pequena atividade muito exaustiva. Lembro-me da fumaça dos lixos que eram queimados pela falta de coleta na comunidade, o que prejudica muito a qualidade de vida no local.

Não posso me esquecer, que foi aqui que começamos a saga das malas! Nossas coisas não cabiam no espaço que tínhamos, muita coisa ficava em malas, e assim foi por um longo período em Ribanceira e depois que mudamos de lá para a Inglaterra. Até hoje, mesmo estando em casa, nossas malas não estão completamente vazias, acho que isso é algo que nunca mais vai mudar.

Acredito que estas tenham sido as causas mais evidentes de algumas dificuldades, mas posso falar com toda propriedade que Deus nos ensinou em todas as situações. Temos diversos testemunhos de tudo o que Deus fez, os quais desejamos compartilhar sempre aqui nesse espaço!

Aprendizados e Legado

Jamais poderemos mensurar tudo o que aprendemos nesse período, foi um tempo determinado por Deus para um propósito muito maior do que nós mesmos. Vimos Deus fazer grandes coisas em Ribanceira.

Deus nos deu uma família verdadeira. Vimos as barreiras da religião serem vencidas pelo manifestar da presença de Cristo. Vimos curas, milagres. Vimos pessoas serem libertas da timidez, da depressão, de complexos. Vimos uma turma inteira de leigos tocarem violão em duas apresentações culturais ao longo do ano. Vimos pessoas semianalfabetas cantar canções em inglês na frente da comunidade inteira. Os testemunhos chegam a nós constantemente.

Nós temos visto o Evangelho transpassar barreiras que para nós, seres humanos, são instransponíveis. Realmente temos testemunhado o sobrenatural acontecer, e todos os que vão ali voltam com o coração aquecido e uma chama ardendo pelo Evangelho. Deus escolheu aquele lugar não somente para enviar missionários até ali, mas para chamar missionários a partir dali.

Depois de nós, foi inaugurado um novo tempo de missionários em tempo integral em Ribanceira. Atualmente quatro jovens compõe a equipe missionária do Love Movimento localizada no Sertão Mineiro.

Ainda hoje estamos envolvidos nessa missão na parte de Empreendedorismo Social, implantando tanques de Tilápia que servirão como fonte de renda das famílias que aderirem ao trabalho. Nos empenhamos também no auxílio ao pastoreio e treinamento dos novos missionários.

Convido vocês a conhecerem melhor este trabalho através dos canais de comunicação do Love Movimento:

@lovemovimento

@raphadolove

Love Movimento

LAURA LIMA

Sou esposa, mãe e missionária. Escrever e compor têm um lugar especial no meu coração. Amo viver com propósito e busco significado em cada pequena coisa.

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