DESAFIOS DA VIDA MISSIONÁRIA

Por Laura Lima

Ao tomar a decisão de ser um missionário, é normal se deparar com grandes desafios. O chamado começa como uma pequena semente no nosso coração, não é mesmo? Ele vem rodeado de sonhos. É um fogo que não te deixa mais querer outra vida senão a de ir onde quer que Deus te envie e ser usado em sua obra. Com certeza, você pode se identificar com isso.

Quando a hora chega, porém, de fazer um plano e colocar todo esse sonho em prática, muitos questionamentos começam a te desafiar. Para onde vou? Como vou me sustentar? Por quanto tempo? Será que consigo aprender a língua desse país? Como vou conseguir um visto? Preciso me filiar a uma agência missionária? Como minha família vai reagir? Preciso largar tudo? E muito mais.

Já que você não vai conseguir todas essas respostas de uma vez, e não existe um passo a passo para que tudo aconteça, eu quero te dar um empurrão para que você tome passos importantes em direção ao seu chamado. Como disse o missionário entre indígenas no Equador, Jim Elliot:

Nós não precisamos de uma grande chamada de Deus, o que realmente precisamos é de um bom chute no traseiro.

Quero pedir desculpas por dar o tom do texto com essa frase um pouco agressiva, mas eu gosto dela porque me vejo nela. Muitas vezes é exatamente disso que precisamos.  

O Rafa e eu alimentávamos um sonho de nos tornar missionários em tempo integral. Nós tínhamos um chamado e uma palavra. Dentre algumas atividades Evangelísticas que participávamos, há anos também visitávamos uma comunidade Quilombola no norte de Minas com um grupo de cristãos do nosso convívio, fazendo evangelismos e prestando assistência.

Rio São Francisco – Um pouco antes de casarmos
Uma de nossas primeiras viagens para Ribanceira – Distrito de São Romão / MG

Já era bom, porém para nós, não era suficiente. A cada vez que aparecíamos por lá, uma luz acendia dentro de nós sinalizando que Deus nos reservava algo mais naquele lugar.

Por outro lado, estávamos morando em uma casa boa, o Rafa tinha um ótimo emprego, fazíamos boas viagens, éramos até bem engajados na obra de Deus, enfim, estávamos vivendo o sonho de todo jovem casal. Tínhamos planos de em breve ter filhos e “largar” tudo isso parecia uma grande burrada de todo ponto de vista possível.

Essa zona de conforto te abraça por todos os lados e te dá todos os motivos pelos quais você deve permanecer como está, ou pelo menos ir adiando a grande decisão para um momento mais “propício” se é que você me entende.

É uma conta matemática que não fecha, por um simples motivo: Deus é sobrenatural, e o Reino de Deus não é como o mundo humano. O que Deus tem para fazer na Terra não acompanha a lógica que normalmente usamos para organizar a nossa vida. É nesse momento de choque entre dois mundos, que uma vida pela fé se difere das outras. Muitas pessoas recuam ao chegar nesse ponto, pois se deparam com a necessidade de ter o controle.

Para nós, largar o emprego significava abandonar de vez o controle de nossas finanças. Isso vai de encontro a tudo que um jovem responsável procura na vida, a tão sonhada estabilidade.

Quero que você entenda que depender de Deus não significa que você não vai traçar estratégias e ficar sempre de bolsos vazios e à margem de toda situação. A Bíblia ensina sobre isso, e Deus nos guiou a alguns planejamentos de antemão que pretendo compartilhar aqui em um texto sobre missões e finanças.

Porém, ainda assim, recursos naturais são finitos, e o dia de amanhã não pertence a nós. Sem a fé você vai se ver desencorajado e impotente em muitos momentos que requerem a confiança plena nos milagres de Deus.

A decisão foi tomada, o Rafa iria pedir contas no emprego que era a nossa principal fonte de renda. E eu também deixaria a atividade que estava envolvida. Enquanto orávamos, o Senhor colocou uma data no coração do Rafael para ele se demitir.

Quando a data chegou, ele hesitou e não cumpriu com o plano. Continuou no serviço e adivinha o que aconteceu? Ele estava em segundo lugar de vendas do Brasil de acordo com um incentivo de vendas que havia acontecido naquele ano. A partir da data estabelecida para que ele deixasse o emprego, ele simplesmente não conseguiu fechar mais nenhuma venda, e até as que estavam em andamento deram para trás.

Para quem pensa que Deus só abre portas, bom, pelo visto Ele também fecha. Os últimos meses dele nessa empresa como vendedor foram muito ruins. Quer sinal mais claro do que esse? Acho que não precisávamos de mais nenhum. Acertamos as contas, falamos com algumas pessoas e marcamos a data da nossa mudança. Você pode ter um gostinho desse momento no nosso vídeo Desbravando o Sertão.

Essa não foi a primeira vez que precisamos tomar uma atitude de fé. A fé não é uma experiência isolada, um botão que você aperta e ativa. Viver pela fé significa uma vida diária de entregas e obediências. Todos os dias você tem a oportunidade de dizer sim a Deus e não a todas as outras coisas. Então, quando momentos desafiadores chegam, você age de forma sobrenatural, pois é a forma como aprendeu a viver.

Deus é criativo e de diversas formas Ele opera em cada um. O chute no nosso traseiro foi assim, um pouco do que contei aqui. Mas para cada um é diferente. Às vezes um texto como esse é o que você precisava para tomar uma atitude em relação a algo que sabe que deve fazer, mas está travado por alguma razão.

David Brainerd, o missionário que orava 10 horas por dia pela conversão de índios norte americanos, uma vez disse: “Nunca me preocupei com onde viveria, nem como viveria nem que provações teria que sofrer desde que assim eu pudesse ganhar mais almas para Cristo.”.

Nós como cristãos precisamos desesperadamente trabalhar para promover oportunidades no Evangelho. Um discurso clichê que já ouvi demais é que precisamos pregar no nosso trabalho, na escola, na faculdade, na vizinhança. Isso de fato é uma verdade, porém esse trabalho é o que Deus te chamou para fazer? Essa faculdade traz o que Deus te chamou para estudar? Essa vizinhança é a que Deus te chamou para morar?

Se a resposta for sim, então você vai fluir na unção de Deus para esse tempo na sua vida. Mas se for não, o mais certo é que você está dando murros em ponta de faca, tentando fazer algo diferente do que Deus quer e assim, adquirindo frustrações por não ter as experiências que gostaria de ter no Evangelho.

Aquelas perguntas lá no início vão ter respostas diferentes para pessoas diferentes em fases da vida diferentes. Mas para todas as perguntas Deus requer de você uma atitude ousada e que embora comprometa seus planos naturais, vão de encontro de forma poderosa ao seu destino em Deus. A por em prática os dons e toda a capacidade que Ele te deu para operar no seu Reino.

Tenha certeza de que um passo te levará a outro, um milagre te levará ao próximo. E assim, Deus vai tecendo cada ponto da nossa jornada e nos ensinando à medida que, confiando nele, obedecemos à sua voz.

LAURA LIMA

Sou esposa, mãe e missionária. Escrever e compor têm um lugar especial no meu coração. Amo viver com propósito e busco significado em cada pequena coisa.

One thought on “DESAFIOS DA VIDA MISSIONÁRIA

  • setembro 29, 2020 em 3:26 am
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    O bom chute no traseiro muitas vezes é necessário, que legal este artigo. Me encorajou demais.

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