O LIBERALISMO TEOLÓGICO E SEU IMPACTO NA IGREJA E NA MISSÃO

Em rodas de conversa entre irmãos em Cristo, um assunto frequente é o esfriamento generalizado da Igreja na Europa e nos EUA. Esfriamento espiritual – do qual o pentecostalismo surge como resposta – e esfriamento teológico, no sentido de que verdades básicas do Evangelho de Jesus Cristo deixam de ser pregadas ou são pregadas sob uma ótica relativista e inclusiva.

Aqui no Brasil, o grande sucesso (do ponto de vista numérico) do pentecostalismo e do neopentecostalismo ofuscam um pouco o movimento de esfriamento de algumas igrejas de denominações históricas, especialmente, situadas em áreas mais nobres dos grandes centros urbanos.

Dentre as muitas razões para o advento de tal esfriamento, a que mais parece fazer sentido é a que liga os líderes de tais igrejas ao movimento teológico liberal, o qual atingiu seu apogeu entre o fim do século XIX e início do XX. Este movimento é considerado herético e segue sendo amplamente condenado por toda a ortodoxia cristã protestante. Hoje, são pouquíssimos os teólogos que, abertamente, consideram-se liberais. Como movimento intelectual, pode-se dizer que liberalismo teológico morreu, contudo, sua influência segue viva e atuante, especialmente nas leituras pós-modernas que tentam traçar uma nova perspectiva para o entendimento do Novo Testamento, baseadas em observações sociológicas em detrimento de uma fé rígida.

O que é Liberalismo Teológico e de Onde Ele Surgiu?

Não se pode pensar o liberalismo como um movimento uniforme e pontual, mas sim, como a resultante de uma série de construções filosóficas e consequentes reformulações da metodologia histórica pelas quais a civilização ocidental passou no século XIX. É preciso, sobretudo, entender a cabeça do homem do século XIX, quem era o intelectual médio dos primórdios da pós-modernidade.

No século XVIII, o Iluminismo ganhava força na Europa. A Ortodoxia cristã, vigente desde os tempos da Reforma, passava a compartilhar lugar com outras disciplinas surgidas das muitas ciências que o movimento iluminista inaugurou. Uma dessas disciplinas foi a Neologia, a qual deu origem ao movimento que carrega seu nome: “Neologismo”. A Neologia não é o questionamento da ortodoxia, tampouco buscou alterar fatos na interpretação bíblica, sua missão era, a partir dos estudos da linguagem e dos recursos de tradução, tentar entender melhor o texto antigo e, extrair dali novas descobertas que pudessem levar a uma melhor compreensão da Bíblia. Talvez o principal trabalho da Neologia tenha sido a chamada Teoria das Fontes, a qual questiona a autoria do Pentateuco por Moisés e lhe atribui quatro fontes de composição. Obviamente que tal afirmação confrontaria a ortodoxia protestante, mas, ainda não era a liberalização do texto bíblico, como alguns teólogos passaram a defender mais tarde. O grande problema da Neologia não foi ela em si, mas sim a porta que ela abriu no campo da investigação teológica, a qual separa o texto de sua autoridade espiritual e busca entendê-lo por procedimentos puramente “científicos”.

No mesmo período, surge o Pietismo na Igreja Luterana, tendo também bastante influência de reformados, inclusive de puritanos como Martin Bucer. O pietismo ensina que não basta ter a fé “correta” dos ortodoxos, antes, é necessário ter uma fé viva, a qual concilia a concordância ortodoxa (ou seja, não rejeita os dogmas) ao mesmo tempo em que busca aplicar aspectos práticos à fé (a prova da por obras de Tiago). O pietismo influenciou muitas escolas de pensamento e universidades alemãs, atingindo um erudito pregador chamado Friedrich Schleiermacher.

Schleiermacher era um pietista educado com morávios, o pietismo morávio unia teologia luterana e reformada, dentre outras doutrinas teológicas. Uma vez estudando filosofia, Schleiermacher teve seu primeiro contato com a Neologia e com a crítica bíblica, partindo então para o romantismo alemão.

O movimento romantista alemão procurou interpretar a realidade a partir de uma construção altamente abstrata, a qual entende que o finito pode conter o infinito, que a história tem um fim e que todas as coisas estão interconectadas. A explicação romântica dos eventos do mundo evoca uma mística (no sentido filosófico) de uma possível hermenêutica universal, a qual seria capaz de explicar todas as coisas. Schleiermacher vai passar a usar esta hermenêutica para interpretar o texto bíblico. A teologia de Schleiermacher em resumo seria:

  • O subjetivismo da fé: a fé deve ser viva, contudo ela é subjetiva, resumida no sentimento de dependência última de Deus. Por este conceito, tem-se a fé pietista, mas sem o contrabalanceamento da ortodoxia. O homem deveria “largar-se” em Deus, mesmo que isso significasse seguir a um certo sentimento “espiritual” ao invés das ordenanças claras do texto bíblico;

Ao mesmo tempo que Schleiermacher produzia sua hermenêntica, alguns teólogos começaram a puxar os conceitos Hegelianos para dentro da teologia. Não é possível pensar a mente do intelectual alemão do século XIX sem falar Hegel, ele foi o mais famoso filósofo de seu tempo e sua escola até hoje influencia muitos pensadores. O resumo do resumo do resumo do resumo do pensamento Hegeliano é:

  • Tese, antítese, síntese: Para Hegel, os movimentos do conhecimento humano são definidos pelo conflito entre diferentes ideias ou suas representações. Assim, toda ideia gera uma tese, a qual despertará uma antítese (seu oposto) e, por fim, gerará uma síntese que é o novo conhecimento ou nova diretriz. Este constante movimento de geração das novas “verdades” é o motor que propulsiona a história;
  • Idealismo histórico: Para Hegel o método de se entender a história está contido no idealismo, nas formas ideais. Para Hegel, existe o Geist, que é o espírito que move todas as coisas e que leva a história para seu rumo, seu destino manifesto. A história seria mero barco a vela conduzido pelo Geist, o qual é seria o vento. O Zeitgeist por sua vez, seria o espírito do tempo vigente, a manifestação do Geist em um determinado recorte histórico. Este Zeitgeist seria a síntese, a qual estaria sempre no processo de transformação em uma nova tese, o que reiniciaria o giro da roda da história.

Voltando à teologia, podemos começar a entender os efeitos do pensamento Hegeliano na tentativa de nova interpretação do texto bíblico. Em primeiro lugar, a ortodoxia passa a ser uma tese, assim, para produzir a síntese (que seria a verdade teológica), os teólogos hegelianos se viram na necessidade de produzir uma antítese. Pela primeira vez, criou-se um programa panorâmico de nova interpretação bíblica baseado em hermenêutica não cristã, nasce aqui o liberalismo. O liberalismo é um programa de libertação da teologia dos dogmas que travam a roda e impedem que a tese seja confrontada pela antítese e se transforme em síntese, a ortodoxia é o estático enquanto o liberalismo é o movimento. Por natureza, o liberalismo nasce:

  • Antidogmático: Os dogmas da Igreja precisam ser rompidos para que a verdade se manifeste e o cristianismo caminhe para o seu fim, seu destino manifesto;
  • Anticlerical: Os clérigos representam o dogma e o conservadorismo, portanto, a autoridade clerical deve ser questionada e novas formas de governança eclesiástica podem ser tentadas;
  • Individualista: O Reino de Deus não necessariamente se manifesta na Igreja, mas no homem;

Albrecht Ritschl, um dos liberais mais proeminentes irá descrever o Reino de Deus na história. A partir desta interpretação Helegiana, Jesus passa a ser visto como o modelo de ser humano perfeito a ser seguido  e, uma vez que tal modelo é estabelecido, pelo processo de tese/antítese/síntese, a humanidade caminhará rumo à plena manifestação do Reino de Deus, a qual neste caso, ocorrerá pela adoção universal da moralidade cristã. É o protestantismo cultural.

Adolf von Harnack, um aluno de Ritschl irá, além de expandir o pensamento de seu professor, desenhar uma crítica à história do dogma afirmando o seguinte: todo o dogma é uma casca que envolve o cerne do cristianismo, essa casca é uma construção pagã e deve ser destruída, já o cerne é o Jesus histórico. Para encontrar o Jesus histórico (não o Jesus místico que veio da virgem), devemos remover as cascas pagãs do dogma.

Ernst Troeltsch, outro autor liberal, dirá que o cristianismo nada mais é que a amalgama de todas as religiões que o circundaram ao longo da história (veja aqui a influência do processo Hegeliano), assim, o cristianismo seria apenas a síntese de um processo histórico de assimilação e incorporação de valores religiosos das sociedades. Agora, já não há mais uma divindade exclusiva do cristianismo, apenas uma superioridade moral, já que ele suplantou seus “rivais” ao longo dos séculos.

Os passos do liberalismo, nem todos traçados ao mesmo tempo, mas paulatinamente, serão:

  • Questionamento da infalibilidade das escrituras;
  • Questionamento de milagres;
  • Questionamento do nascimento virginal de Cristo;
  • Questionamento da divindade de Cristo;
  • Questionamento da expiação;
  • Questionamento da ressureição de Jesus.

A Fé Liberal

O liberalismo teológico foi desenvolvido em um ambiente de grande fé na humanidade, na racionalidade e na ciência. Os liberais são, necessariamente progressistas, eles creem no progresso e aprimoramento humanos. Tal Zeitgeist da segunda metade do século XIX foi provocado por diversos fatores, dentre os quais valem a pena ser citados:

  • A reconstrução da Europa após o fim das guerras napoleônicas: Após trágicos eventos provocados por Napoleão e seus generais, nos quais mais de 1,7 milhões de pessoas morreram, a Europa vivia o alvorecer da Belle Époque. O grande intercâmbio cultural, a paz entre as nações e o florescer das artes marcavam o tempo, o que gerava uma sensação de que tal progresso não teria fim, ninguém em sã consciência desejaria romper com uma situação de tamanho gozo, prosperidade e paz;
  • O grande desenvolvimento industrial e tecnológico: A revolução industrial permitia que o homem fizesse coisas, há poucos anos, inimagináveis. Novas teorias nas ciências naturais permitiam a todo instante, novas descobertas e invenções. O domínio da indústria do aço permitia que a riqueza nas cidades crescesse a patamares nunca antes alcançados. Novos equipamentos, máquinas, carros, navios, tudo era novo, a ciência avançava a passos largos;
  • A ascensão do positivismo e do cientificismo: O positivismo de Auguste Comte e sua escola deixava marcas fortes nas sociedades, os métodos das ciências naturais passavam também a percorrer as ciências sociais e, aparentemente, o homem descobria a fórmula para se alcançar a verdade universal, a ciência, cética, não religiosa. As monarquias históricas da Europa davam lugar às nascentes repúblicas e o governo de uma tecnocracia substituía a religiosa nobreza. A ciência levaria o homem para longe das barbáries em que os religiosos se meteram no passado.

Os liberais, lendo o Zeitgeist de sua era, interpretaram que o homem finalmente havia sido posto em movimento, o melhoramento contínuo das condições na terra a fixação da paz entre os povos só poderia ser o sinal de que o Reino de Deus se aproximava. Se o cristianismo cultural continuasse a avançar, em breve, o Reino haveria de chegar.

Não é preciso dizer o quanto os liberais estavam errados neste sentido. Pelos que nos conta a história, a acumulação cultural, científica e tecnológica foi recebida de braços abertos pelo século XX com uma guerra mundial que deixou mais de 19 milhões de mortos, uma revolução socialista na Rússia e outra guerra mundial logo em seguida que deixou outros inacreditáveis 70 milhões de mortos. Dentro dos regimes comunistas centralmente dirigidos, estima-se que mais de 100 milhões de pessoas foram assassinadas por seus próprios governantes.

A fé liberal já nasce falha, sobretudo, porque é uma fé no homem.

Influências do Liberalismo Hoje

Retomando o tema do início do texto, não podemos deixar de ligar o liberalismo ao esfriamento das igrejas no hemisfério norte. É um fato, que o liberalismo não se manifesta mais de forma tão clarividente como no passado, mas sua influência é inegável. Sabe-se que há igrejas europeias que se reúnem por meses (até anos) sem abordar o tema do pecado, da condenação e da Justiça de Deus. Não abordam o apocalipse nem o juízo vindouro, apenas pautas morais e culturais tem espaço em seus cultos (que valem o mesmo que o livro de autoajuda).

O liberalismo é pouco combatido no Brasil porque de fato, sua influência aqui foi ofuscada pela ascensão dos movimentos pentecostais e neopentecostais.  O pentecostalismo suplantou o liberalismo primeiro porque ele oferece uma linguagem teológica popular enquanto que o liberalismo é um movimento de elite. Embora os hoje influenciados liberalismo sejam, em geral progressistas de esquerda que teoricamente teriam uma “interlocução” com os pobres, é sabido que em sua maioria são intelectuais universitários e moradores de bairros nobres. Não é comum que as massas entendam Hegel, por isso, o liberalismo sempre foi um movimento de elite, não de massas. Com o advento do neopentecostalismo, a teologia liberal perdeu ainda mais espaço nos países pobres, haja visto que o pecador pobre está pouco se lixando para o cristianismo moral, o que ele quer é prosperar, ser curado, comprar carro, casa e viajar.

Mas, nem tudo são pedras para o liberalismo. O enriquecimento das populações urbanas nos últimos anos e os crescentes níveis de escolarização secularizada dos jovens despertaram as influências adormecidas da fé liberal. De repente, dentro de igrejas históricas começaram a surgir grupos de questionadores de todo tipo de liderança, ou que promovem o “desigrejamento” alegando que “o que importa é seguir a Jesus, não à Igreja”.

De repente, “seguir a Jesus” tomou uma forma fluida e passou a representar “tudo o que sinto que faz bem para mim e para o próximo”. De repente, a igreja começou a abraçar o mundo dizendo que “o que importa é amar a cada um como se é”. De repente o púlpito parou de condenar o pecado e passou a enfatizar a “importância do papel social da Igreja para trazer o Reino de Deus”. De repente, a gente está pensando que o liberalismo morreu no pós-guerra e ele está ao nosso lado, nos tornando céticos a respeito do Pecado, da Justiça e do Juízo.

Mateus Vieira

Por Mateus Vieira
Casado, membro da Igreja Batista em Cristo e entusiasta da auto-educação. Escreve sobre temas da filosofia, economia e se arrisca na teologia.

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