PAÍSES DE PRIMEIRO MUNDO TAMBÉM PRECISAM DE JESUS

Pensar em missões, sem dúvidas, envolve pensar em obras de caridade e alcançar pessoas que não têm o básico para sobreviver com dignidade. O Reino de Deus é um Reino de igualdade e não há o que pensar sobre a “obra de Deus” sem que nos lembremos das pessoas que possuem menos, e que vivem a margem da precariedade.

O conceito amplo de missões gira em torno de cuidar de órfãos, viúvas, abandonados, pessoas que vivem em situação de miséria, levar a palavra ao pobre, ao faminto, educação, emprego e dignidade aos lugares onde não se tem o mínimo. Tudo isso move o nosso coração, pois sem dúvida alguma conhecemos que essa é a vontade de Deus.

Porém, de alguma forma, no imaginário de muitos, missões se trata somente de esforços direcionados aos lugares longínquos onde vivem tribos indígenas ou onde há pessoas em situação de extremo risco em áreas áridas e escassas de recursos materiais. Dessa forma, deixando de considerar países de primeiro mundo, aonde a vida é melhor, como o campo aonde Deus também deseja se manifestar.

Estou ciente de que essa visão foi formada baseada em uma real e urgente necessidade. Alguns dos lugares com características citadas acima, estão localizados em regiões de difícil acesso e condições adversas, fazendo com que muitos desses locais sejam desprivilegiados em receber ajuda humanitária e atenção das igrejas ao mobilizar seus missionários para estabelecer uma obra evangelística de qualidade ali.

Mas hoje, venho através desse texto, alarmar em relação à reviravolta que mundo está presenciando, no que se trata de países antes considerados abastados em relação ao conhecimento do Cristianismo. Países como Inglaterra e Alemanha, que outrora exportaram missionários para todo o mundo, hoje se encontram na condição que alguns gostam de denominar como “era pós-cristã”.

E O QUE É A “ERA PÓS-CRISTÔ?

Deus, na pessoa de Cristo representa diante da humanidade a figura de um homem perfeito. Em Jesus Cristo, podemos identificar a expressão de princípios morais que buscam definir um exemplo para todas as pessoas. Sua vida apresenta um padrão divino de pensamento e atitudes condizentes com a vontade perfeita de Deus.

Vivemos no momento presente, em nossa sociedade pós-moderna, a astúcia do relativismo. Essa linha de pensamento busca enfraquecer qualquer ideia de verdade absoluta, já que a verdade nesse caso tem valor subjetivo, que pode mudar de acordo com fatores culturais, percepções pessoais, eventos e situações.

Nessa cosmovisão, parte-se sempre do pressuposto de que o mundo é plural. Há variedades de conceitos, de valores e de opiniões. Aqui, não existe certo e errado, o que é certo para um pode ser errado para o outro, cada um tem sua própria verdade. E se Deus existe, Ele deve ser reduzido a alguém que não deve ter influência na forma como eu conduzo minha vida, pois só eu sei o que é melhor para mim. Dessa forma a vida passa a ser guiada pelas emoções e circunstâncias momentâneas, e não por conceitos embasados em um padrão moral superior.

C.S Lewis em sua obra A Abolição do Homem, disse: “abandonando o transcendental, eles caíram no vazio. Nem os objetos do condicionamento serão homens infelizes. Eles não são homens em absoluto: são artefatos. A conquista final do homem mostrou-se a abolição do homem.”

Segundo Lewis, o amortecimento dos conceitos de moralidade absoluta e dos valores universais faz com que corramos o risco de perder a própria humanidade. Em nossa natureza, estão presentes de forma intrínseca os fundamentos de moral e de justiça que tem origem em Deus, nosso Criador. Negar isso, é negar a essência da nossa existência, é exterminar qualquer senso de propósito que envolve a vida de uma pessoa.

Numa sociedade em que o bem e o mal são relativizados, o vazio existencial é o que resta dos cacos de humanidade que nos sobraram. Pessoas completamente desprovidas de sentido vagam pelo mundo exibindo a feiura de sua miséria espiritual.

À medida que a sociedade vai sendo tomada por essa filosofia relativista de vida, a fé em Deus passa a ser encarada como algo a ser superado, pois a mensagem do Evangelho não permite relativismos. O cristianismo está embasado em uma verdade única que para ser aplicada em nossas vidas, é necessário que deixemos de lado qualquer conceito diferente dos ensinamentos de Cristo.

Dessa forma, a pós-modernidade trouxe consigo o pensamento anticristão. Na Europa, por exemplo, em países onde outrora o Evangelho era amplamente apregoado e sua cultura, artes, conhecimento e desenvolvimento, construídos sob a influência do Cristianismo, hoje contemplamos a decadência da fé cristã que é vista constantemente como algo ultrapassado.

Na nossa missão na Inglaterra em 2019, pudemos ver isso na prática. Durante evangelismo nas ruas, um homem ao qual abordei para oferecer oração, me disse: “Obrigado querida, mas eu já passei dessa fase.”

A DURA REALIDADE DA NOVA GERAÇÃO

À medida que esse sentimento de “superação da fé” se espalha, uma nova geração se levanta carente de uma sólida influência baseada em um modo de viver digno daquele o qual Deus idealizou para que vivamos.

Hoje na Europa, de um modo geral, as reuniões de comunidades de fé estão cada vez mais escassas. Muitos locais de culto se transformaram em Pubs, e dentre as poucas igrejas remanescentes, a ausência dos jovens é algo a se destacar. Dificilmente se acha jovens comprometidos e engajados na fé cristã como, pela misericórdia de Deus, ainda vemos no Brasil. Nos Estados Unidos e Canadá, não é diferente. A apatia espiritual e o materialismo já se tornaram a mentalidade predominante.

Tudo isso, aliado a uma cultura intimista e privada, dificulta com que consigamos penetrar em meio à cultura e disseminar a verdadeira mensagem de Jesus. A falta de instrução adequada na Palavra de Deus entre os jovens faz com que os intelectuais políticos, acadêmicos e midiáticos, disseminem com facilidade conceitos equivocados sobre a história do Cristianismo e fundamentos concernentes à fé.

Em contrapartida, no Reino Unido, o suicídio é a principal causa de morte em jovens, sendo responsável por 14% das mortes em juvenis de 10 à 19 anos e 21% das mortes em jovens adultos de 20-34 anos (Suicide by children and young people, National Confidential Inquiry).

Em toda Europa, o suicídio é a segunda causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, depois dos acidentes de trânsito. Mais de 120.000 suicídios são cometidos a cada ano em toda a região europeia, com os países de renda baixa e média da região tendo as taxas de suicídio mais altas do mundo, de acordo com o site da World Health Organization.

O QUE DEUS ESPERA DE NÓS?

Eu fui despertada para essa realidade pouco antes de ir para a Inglaterra, quando em uma visão Deus me mostrou uma imagem de mim mesma arando uma terra dura e seca e ouvia uma voz que me dizia: “Fere a terra”. Eu entendi no meu Espírito que Deus estava nos levando a um lugar onde pessoas, representadas pela terra seca e mal trabalhada, ainda não estavam preparadas para receber a semente da Palavra de Deus.

Se você lançar a semente em uma terra que não foi arada e preparada, a semente não terá forças, não receberá luz, nutrientes e humidade que precisa para germinar. Dessa forma, precisaríamos ter o entendimento necessário da situação para “amaciar” a terra com oração, relacionamento, sacrifício pessoal, e paciência até que finalmente a Palavra possa ser semeada sem ser desperdiçada.

Eu sabia que um trabalho pesado e difícil nos esperava, e não foi diferente. Meses a fio sem mal conseguir pregar, trabalhando integralmente em estratégias para conseguir ao menos se relacionar com pessoas que usam de sua cultura fechada para se protegerem da Verdade que os deseja alcançar.

Deus quer levantar missionários que tenham compaixão suficiente para chorar por essas vidas. Precisamos de missionários aptos, que tenham conhecimento e que estejam cheios de fé. Pessoas que se esforçarão para trazer um exemplo de alguém que tem uma vida verdadeira, cheia de propósito e que vale a pena ser vivida. Precisamos ter a visão de Deus para trazer de volta um fogo e uma paixão para as terras secas e frias de países que embora ricos materialmente, padecem pela falta do genuíno leite espiritual.

É necessário, missionários que não tenham vergonha de sua fé para testemunhar do que o Cristo vivo tem feito ainda hoje em suas vidas. Que tenham coragem de dizer em qualquer língua ou dialeto que Deus não está morto, mas que vive e Reina para sempre, que é Deus grande e poderoso, mas que se fez homem servo de todos para salvar a nós, pecadores.

Deus deseja levantar pessoas que se esforçam em aprender novas línguas, pessoas que não vão somente a uma tentativa de impor sua fé e cultura pessoal, mas que com amor, entram na vida de pessoas para aprenderem seus hábitos, suas preferências, sua cultura. Precisamos como Jesus, nos identificar em amor e compaixão com aqueles que desejamos alcançar.

CONCLUSÃO

A dignidade do homem não descansa somente no fato de que este esteja suprido de recursos palpáveis. Toda carência existente na alma já se torna um alvo da missão do Evangelho, afinal Jesus veio para os doentes, para todo aquele cuja existência clama por descobrir o bom propósito do seu Criador e Deus.

Em nosso próprio país temos sido atingidos pela mesma tendência que assola o mundo. Porém, usaremos de nossa liberdade e de nosso coração aquecido no Evangelho para sermos enviados com poder e graça, nos espelhando um pouco em tudo o que grandes homens de Deus do passado, vindos do primeiro mundo um dia fizeram por nós.

LAURA LIMA

Sou esposa, mãe e missionária. Escrever e compor têm um lugar especial no meu coração. Amo viver com propósito e busco significado em cada pequena coisa.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *